Meu estilo de desenho e meus impulsos de criação sempre estiveram ligados ao passado. Em outras palavras, ligados a memórias e ao gosto pela arte clássica e figurativa. No entanto, para mim, é difícil desenvolver perfeita coerência entre as obras que faço já que todas as coisas experienciadas voltam de modo furtivo e bagunçado, gerando então um balaio de imagens que, por assim dizer, parecem querer sair todas ao mesmo tempo. 

Há, porém, elementos comuns dentro de meus trabalhos, principalmente naqueles que partem unicamente de minhas memórias mais distantes, como por exemplo a coleção Do Saco de Memórias, na qual eu uso, a fim de delinear a criação e, também, de tematizá-la, algumas palavras recolhidas de uma velha meia para gerar uma imagem composta, onde é possível ver unicamente elementos que fazem parte do meu universo, principalmente da minha infância. São casos onde não é possível encontrar quaisquer críticas, preocupações ou julgamentos a problemáticas sociais, ou eventos, metaforismos e fenômenos da vida moderna. No entanto, é de minha preferência fluir através de novas idéias, desprendido de objetivos claros, o que resulta nas distintas modalidades que abordo em meus trabalhos.

A título de exemplo, eis abaixo um texto baseado numa crítica gentilmente cedida pelo cineasta Sérgio Andrade.

 

 Bem vindo!
   Meu nome é Guilherme e esta é uma compilação de  meus trabalhos em

animacão e Ilustracão.

Sou natural de Santa Catarina, onde me graduei em  cinema e vídeo pela Universidade do Sul de Santa Catarina, realizando muitas obras em pintura e desenho e, principalmente, direção de arte e cenografia. Sendo desenhista por paixão, ao final do curso voltei minha atenção para a animação.

 Minha temática e estética, tanto das obras cinematográficas quanto das artes plásticas, honram uma visão de mundo em que é na natureza que encontramos o significado de todas as coisas, e tentam, sempre que possível, exaltar sua beleza, suas conexões, sua selvageria e sua graça.

A imagem do que a Terra já foi um dia, há milhões de anos, parece ser um mistério tão exuberante e tão significativamente intangível que torna-se capaz de irradiar a beleza das puras constituições humanas:

A razão ainda selvagem, o espectro da graciosidade e a conexão com todas as coisas.

 

A coleção reunida é fruto de um trabalho iniciado na infância, e desenvolvida pelos fatos não noticiados e pela natureza oculta nas coisas. A textura da pele dos répteis, o brilho prateado das nuvens multiformes e o focinho úmido de algum filhote parecem ser um substrato artístico, insuflando seu legado.

Do tato à insetos, da reunião de pedrinhas, gravetos, contas, fiapos, surgem os desenhos flertando tudo com vestígios imaginários de paisagens e famílias que se completam aos poucos, a cada pequeno traço.

Assim, as imagens falam de subgrupos de imaginação, do reino das mandíbulas, dos seres peludos e das quimeras burlescas. Todos os quais sem retratos.

 

A quebra contínua do conhecimento foi o que gerou este caso. Não por acaso - o que de fato sempre acontece durante uma dança frenética de poeira à luz de um farol desnorteado - ele se dá por uma brincadeira sem graça de memória se fragmentando e possibilita apenas fugazes lampejos de total consciência.

 

Mas em outra gestação de ideias, houve, talvez, psicografia de ancestrais extintos, e leitura labial, ocular e corporal de animais que não falaram, não enxergaram e não moveram-se para frente. Tudo isso na busca pelo desvendar de um intrigante enigma. Visto que é impossível finalizar  a Tese Universal dos Seres e da Curva dos Dias, gera-se, então, uma pena. A condenação à espera eterna sem que seja dada a chance de entender o simples, o indivisível, o farsesco processo de uma sinapse.

 

 

 

Do Saco de Memórias 1 - Quadro de coleção