Análise do filme Devoradores de Estrelas Project Hail Mary, (2026)
- Guilherme Gehr
- 17 de abr.
- 5 min de leitura

Saudações Guilhermísticas! Ontem assisti ao tão comentado Devoradores de Estrelas, e achei válido compartilhar aqui minha inquietação durante a sessão. Embora este filme esteja sendo muito bem recebido por críticos e pelo público, com manifestações calorosas de gente que diz ter se emocionado com o filme, eu me recuso a aceitar esse viés de análise mais manteiga derretida, mas confesso que demorei um pouco para assimilar o que achei que faltou para me sentir realmente encantado pela obra.
Resumidamente o filme é uma adaptação do Livro homônimo do escritor americano aficionado por ciências Andy Weir, não é “Weird” ok!? (apesar de ele ser um tipo de nerd eufórico), em que um professor de ciências, cientista não atuante, é recrutado por uma coalizão global de pesquisa para combater um microorganismo, que está literalmente se alimentando da energia de quase todas as estrelas da galáxia, incluindo nosso Sol, o que, como consequência, ameaça a vida da Terra.
O que torna o filme emocionante não é a viagem, ou as relações entre os personagens humanos, nem mesmo a possibilidade de todos morrerem, mas sim a despedida entre amigos, seja por morte de um deles, ou pelo fim do convívio. Esses amigos são, nada mais nada menos do que uma cópia de Elliot e o E.T: Um homem que se comporta como um adolescente modesto e brincalhão, e uma criatura que de tão estranha, ao se comunicar, causa o efeito contrário ao da repulsa: o vínculo.
O filme se desenrola para estabelecer esta relação e parece que é por ela que todos estão sendo impactados. Uma amizade improvável, que se desenrola com forte afetividade e cuja separação causa dor.
O filme tem muitos aspectos apreciáveis na Fotografia, Arte, Atuação, Direção, e em vários outros departamentos da produção, especialmente nos efeitos visuais práticos, e também na própria condução da história, que estabelece de forma muito rápida uma credibilidade para os pontos ficcionais dentro do universo científico. São bem justificados, mesmo que por vezes não mostrados, os "fatos científicos” inventados para o funcionamento da história, como por exemplo a ecolocalização de um ser alienígena que vive em um planeta não iluminado onde a visão é desnecessária, ou o gene raro que faz um professor de ciência virar astronauta porque ele é capaz de sobreviver ao coma induzido para a viagem. Isso mostra um cuidado muito grande e muito louvável com coerência científica em cada escolha - mesmo elas não sendo fundamentadas na ciência real.
Muitos olhares críticos da obra apontam para estas incongruências com a realidade científica na obra (desde o livro), mas quando se trata de ficção científica, é natural que algumas liberdades sejam necessárias e não só acho isso válido, mas acho muito bom. Vai da autoria, ou no caso da direção, construir uma narrativa que dê credibilidade para essas liberdades de forma natural e agradável. Isso faz muita gente debater o filme por horas.
Por outro lado, a questão da emoção humana, construída com muito interesse no filme, e a personalidade informal do protagonista que cativa especialmente jovens, certamente são pontos fortes na direção da dupla Phil Lord - Christopher Miller, que colaboram em projetos bem nichados, geralmente para públicos jovens. Os caras são mestres em simplificar complexidades para atingir o coração, mas fazem isso com o uso de clichês narrativos que sempre roubam a cena.
Não quero dizer que os clichês são ruins, muito pelo contrário. Eu mesmo sou fã de Avatar (de James Cameron) que é um tanque de 279 toneladas de puro clichê, mas entendo que entregar somente clichês virou por si só o grande clichê das obras americanas. Ao que me parece, a obra literária de Project Hail Mary foca muito mais em conceitos científicos quânticos, moleculares, astrofísicos do que em ecologia e moralidade. Estas coisas que a obra explora - abordadas como curiosidades científicas - estão a serviço de uma narrativa mais do que a história a serviço de uma reflexão. O filme afunda essas lacunas (ao meu ver) ao ponto de se tornarem abismos. O personagem descobre a solução dos problemas e confia totalmente e prontamente na previsibilidade que ele julga ter, mas não tem. Spoiler aqui: um predador, igualmente microscópico, é o mote para que o professor e seu amigo alienígena “Rocky” atinjam todo o conforto que precisamos para permitir que a história se conclua com final feliz, prevendo que a ameba que mata os bichinhos devoradores de estrelas será a solução perfeita.Não há espaço para nenhuma reflexão sobre a complexidade de uma operação cósmica com o uso de predador para um "desequilíbrio” ecológico espacial, nem mesmo para se pensar na possibilidade de que a solução possa se tornar o motor de um desastre ambiental na Terra e no espaço.Fazer o controle de pragas com a introdução controlada de predadores é hoje um dos recursos ambientais vigentes, mas é um processo extremamente delicado e perigoso, e a história nos mostra que esse recurso já rendeu desastres colossais, que afetam ecossistemas inteiros. O famoso sapo-cururu, da América Central e do Sul, foi introduzido em diversos países para controle de pragas de lavouras - devastou populações de répteis, mamíferos, e outros anfíbios além de não controlar eficazmente a praga original. Nativo do sudeste dos Estados Unidos, o caracol-lobo-rosado foi introduzido em diversas ilhas do pacífico e Caribe por predar outros caracóis, na tentativa de controlar outra praga igualmente exótica: o caramujo africano - preferiu atacar outras espécies de caracol até a extinção. A joaninha-arlequim, do leste asiático, tão bonitinha, foi disseminada no mundo todo para controle de pulgões - compete com populações de joaninha nativas e afeta a viticultura. Podemos incluir também os gatos domésticos, frequentemente utilizados por pessoas para controle de roedores. Embora não sejam introduzidos como estratégia formal, esses animais frequentemente se estabelecem na natureza, onde passam a predar diversas outras espécies, causando desequilíbrios ecológicos além do alvo inicial. Todos esses são exemplos de casos de introduções deliberadas ou mal controladas de espécies com função predatória que afetaram parcial ou integralmente níveis tróficos dos ecossistemas e passaram a ser vistos como pragas também. Todos são erros de cálculo, soluções que fugiram do controle previsto originalmente. Existem casos bem piores.Então isso me incomoda no filme, a falta de ao menos uma frase que demonstre que o personagem - um professor que (diferente do próprio filme) ama ensinar ciências para crianças, diga-se de passagem - tem o mínimo de discernimento sobre testagem científica, possibilidade de erros, imprevisibilidade de resultados, especialmente diante de sistemas biológicos. Isso é fruto de um pensamento muito tecnocrático, amplamente explorado no cinema, em que o universo é 100% legível por dispositivos tecnológicos, e que a inteligência humana é capaz de ajustar todos os problemas da natureza.
O próprio Andy Weir disse em uma entrevista: “É legal ver esse tipo de interação pessoa versus natureza, como uma competição”, "ninguém torce pela natureza”. Ele estava se referindo ao duelo de sobrevivência em contação de histórias, em que o público torce pelo personagem humano (ou que gera identificação humana) em detrimento da natureza ao redor dele, que pode matá-lo.
Me desculpe, Andy, mas às vezes eu torço pela natureza sim. O problema é que a obra é feita para que o público torça obrigatoriamente pelo humano (e pelo alienígena 100% antropomorfizado) , afinal isso afeta as emoções e não o pensamento, e atingir o público no peito gera mais renda. Não julgo mal o filme por isso, mas ao entrar em uma história de ficção científica, eu sempre espero ver espaço para uma reflexão construtiva sobre nossa percepção da natureza, ou sobre nosso conhecimento sobre a própria ciência, e isso, em Devoradores de Estrelas, passou batido.
Além disso tudo, a questão da antropomorfização do alienígena seria outro ponto que eu poderia discorrer. Quem me conhece sabe que eu critico bem essa necessidade de humanizar o outro para cativar o público. Isso é uma barreira cultural raramente quebrada por cineastas de blockbusters. Não vem ao caso aqui, mas se não fosse assim, como venderiam bonecos do Rocky se ele não fosse um cara legal?
Sobre antropomorfização eu falarei bastante no próximo texto em que pretendo contar minhas impressões sobre a série da Netflix Os Dinossauros.
Obrigado por seu interesse.
